Dia Mundial do Abutre

 



Os abutres (rapinas pertencentes às subfamílias Gypaetinae e Aegypiinae, no caso dos chamados “abutres do Velho Mundo” e à família Cathartidae no caso dos ditos “abutres do Novo Mundo) são, de entre as rapinas, uma das que de mais de perto conviveu com os humanos, historicamente falando, e que desperta sentimentos mais contraditórios. Se é facto indiscutível que ao longo desempenharam um papel muito relevante na limpeza dos cadáveres e de restos de carne fruto da actividade humana – culminando nos enterros celestiais da tradição budista, em que os corpos dos falecidos são deixados em sítios pré-definidos para que as aves deles se possam alimentar -, normalmente a representação cultural dos mesmos não é a mais abonatória. 

Em Portugal, ocorrem regularmente três espécies de abutre: o grifo-euroasiático (𝐺𝑦𝑝𝑠 𝑓𝑢𝑙𝑣𝑢𝑠), de longe a mais comum e de distribuição mais alargada; o abutre-negro (𝐴𝑒𝑔𝑦𝑝𝑖𝑢𝑠 𝑚𝑜𝑛𝑎𝑐ℎ𝑢𝑠), em tempos extinto como reprodutor, mas que recolonizou o nosso país e se encontra em franca expansão; e finalmente o abutre-do-Egipto ou britango (𝑁𝑒𝑜𝑝ℎ𝑟𝑜𝑛 𝑝𝑒𝑟𝑐𝑛𝑜𝑝𝑡𝑒𝑟𝑢𝑠), hoje em dia limitado à metade norte do país enquanto reprodutor, e única destas três espécies que realiza verdadeiras migrações anuais. Adicionalmente, Portugal é também visitado de forma semi-regular por indivíduos grifos-de-Ruppell (𝐺𝑦𝑝𝑠 𝑟𝑢𝑒𝑝𝑒𝑙𝑙𝑖) – uma espécie africana – e, nos últimos anos, por indivíduos de quebra-ossos (𝐺𝑦𝑝𝑎𝑒𝑡𝑢𝑠 𝑏𝑎𝑟𝑏𝑎𝑡𝑢𝑠) provenientes dos programas de reintrodução espanhóis. Outrora muito comuns nos céus portugueses, a maior parte dos abutres portugueses está hoje limitada à faixa raiana, devido às alterações legais no regime de tratamento dos cadáveres de gado levadas a cabo no país após a crise da BSE nos anos 90, que reduziu muitíssimo a disponibilidade alimentar para os mesmos (na vizinha Espanha, o regime é consideravelmente mais brando, permitindo que estes se alimentem. 

Neste Dia Mundial dos Abutres, comemorado sempre no primeiro sábado de Setembro, sensibiliza-se a população para a situação e diversidade destas aves, por vezes injustiçadas.



(na foto 𝐴𝑒𝑔𝑦𝑝𝑖𝑢𝑠 𝑚𝑜𝑛𝑎𝑐ℎ𝑢𝑠)
Texto de António Matos
Biólogo, Associação Montícola




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